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O tempo decorre como uma espiral.

Espirais. Círculos e ciclos. O tempo decorre como uma espiral. Roda, anda, segue e avança. Os minutos, as horas e os ritmos da vida parecem repetir-se. Nunca nada é igual. Há um início mas o fim ainda não está visível.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015




Alma e Realidade, Duas Paisagens Sobrepostas 



Acrílico s/papel Emília Matos e Silva (300 mm x 230 mm) 25€

"...Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes."


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015






desenho Emília Matos e Silva (colecção particular)

Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão;
os seus ardores são chamas de fogo,
são labaredas divinas.

Nem as águas caudalosas conseguirão
apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.
Se alguém desse toda a riqueza de sua casa
para comprar o amor,
seria ainda tratado com desprezo.



Cântico dos Cânticos 8, 6 e 7

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015


A ilusão é um erro dos sentidos ou da inteligência que faz tomar a aparência pela realidade.



óleo s/ 3 telas Involvência III Emília Matos e Silva (colecção particular)


A ilusão é um erro dos sentidos ou da inteligência que faz tomar a aparência pela realidade.
A quimera, tanto pode ser um monstro fabuloso formado de diferentes partes de animais, como algo de fantástico em que se toma a fantasia como realidade.
A fantasia tanto pode ser imaginação criadora como ficção.
A realidade é a qualidade do que é real, do que existe de facto.

«Dicionário Prático Ilustrado, Jaime de Séguier, Lello & Irmão, 1955»


Dado que a ilusão é um erro, o certo é deixar de lado as miragens e viver de acordo com o que é real e existe de facto. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015



óleo s/tela de Emília Matos e Silva  (colecção particular)

 Entre o sono e sonho


Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
— Esse rio sem fim.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015





óleo s/tela em cartão Emília Matos e Silva (500 mm x 700 mm)

Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho
E a arte deve ser como esse espelho
Que nos mostra o nosso próprio rosto

Jorge Luis Borges em "Arte Poética" 

domingo, 25 de janeiro de 2015





óleo s/tela Das brumas do tempo (colecção particular)

Os Cavaleiros

- Onde vais tu, cavaleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'ele a ventar...
Não responde o cavaleiro,
Que vai absorto a cismar.
- Onde vais tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
Vais bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
- Vais levar uma mensagem?
Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
Irás em meia viagem
E eu já de volta hei-de estar.
E o cavaleiro, à passagem,
Faz as árvores vergar.
- Vais escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t'o a escalar:
Não há no mundo pedreiro
Que a mim se possa igualar!
Não responde o cavaleiro
E o vento torna a falar:
- Dize, dize! vais p'ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
Não há cavalo na Terra
Que tenha tão bom andar...
E os trovões rolam na serra
Como vagas a arrolar!
- E as guerras hás-de ganha-las,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me à frente das balas
Para a força lhes tirar!
E as árvores formam alas
Para os guerreiros passar.
- Vais guiar as caravelas
Por sobre as águas do mar?
Guiarei as tuas velas
À feição hei-de assoprar.
E os astros vêm ás janelas
E a lua vem espreitar...
- Onde vais na galopada,
À tua infância, ao teu lar?
Conheço a tua pousada:
Já lá tenho ido ficar.
E vai longe a trovoada,
Vai de todo a aliviar.
- Vais ver tua velha tia,
Na roca de oiro a fiar?
Loiro linho que ela fia,
Ajudei-lho eu a secar!
E o luar é a Virgem Maria...
Que lindo vai o luar!
- Vais ver a tua mãezinha?
Coitada! vi-a expirar:
Tinha a alma tão levezinha,
Que voou sem eu lhe tocar!...
E o cavaleiro caminha,
Caminha sem se importar!
- Vais ver tua irmã? Ao peito
Traz um menino a criar:
Ai com que bom, lindo jeito
Ela o sabe acalentar!
E o vento embala no peito
Uma nuvem, p'ra imitar!
- Onde vais tu? Aonde, aonde?
Fantasma! vais-te casar?
Eu sei da filha d'um conde
Que por ti vive a penar...
E o fantasma não responde,
Sempre, sempre, sempre a andar!
- Vais à cata da Ventura
Que anda os homens a tentar?
(Ai d'aquele que a procura
Que eu nunca a pude encontrar...)
N'isto, pára a criatura,
Faz seu cavalo estacar:
- Vento, sim! Espera, espera!
Que estrada devo tomar?
(É um menino, é uma quimera
E todo lhe ri o olhar...)
E o vento, com voz austera,
Dor, querendo disfarçar:
- Toma todas as estradas
Todas, áquem e além-mar:
Serão inúteis jornadas,
Nunca lá hás-de chegar...
Palavras foram facadas
Que é vê-lo, todo a sangrar...
E seus cabelos trigueiros
Começam de branquear,
E olham-se os dois cavaleiros...
Quedam-se ambos a cismar.
Brilha o Oriente entre os pinheiros,
Ouvem-se os galos cantar...
- Adeus, adeus! Nasce a aurora,
Adeus! vamos trabalhar!
Adeus, adeus! vou-me embora:
Chamaram-me as velas, no mar...
o vento vai por hi fóra,
No seu cavalo, a ventar...



António Nobre, in 'Só' 

Atelier 17   O Atelier 17  foi uma escola e atelier de arte que influenciou o ensino e a promoção da  gravura  no século XX. Originalmen...