domingo, 25 de janeiro de 2015





óleo s/tela Das brumas do tempo (colecção particular)

Os Cavaleiros

- Onde vais tu, cavaleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'ele a ventar...
Não responde o cavaleiro,
Que vai absorto a cismar.
- Onde vais tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
Vais bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
- Vais levar uma mensagem?
Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
Irás em meia viagem
E eu já de volta hei-de estar.
E o cavaleiro, à passagem,
Faz as árvores vergar.
- Vais escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t'o a escalar:
Não há no mundo pedreiro
Que a mim se possa igualar!
Não responde o cavaleiro
E o vento torna a falar:
- Dize, dize! vais p'ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
Não há cavalo na Terra
Que tenha tão bom andar...
E os trovões rolam na serra
Como vagas a arrolar!
- E as guerras hás-de ganha-las,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me à frente das balas
Para a força lhes tirar!
E as árvores formam alas
Para os guerreiros passar.
- Vais guiar as caravelas
Por sobre as águas do mar?
Guiarei as tuas velas
À feição hei-de assoprar.
E os astros vêm ás janelas
E a lua vem espreitar...
- Onde vais na galopada,
À tua infância, ao teu lar?
Conheço a tua pousada:
Já lá tenho ido ficar.
E vai longe a trovoada,
Vai de todo a aliviar.
- Vais ver tua velha tia,
Na roca de oiro a fiar?
Loiro linho que ela fia,
Ajudei-lho eu a secar!
E o luar é a Virgem Maria...
Que lindo vai o luar!
- Vais ver a tua mãezinha?
Coitada! vi-a expirar:
Tinha a alma tão levezinha,
Que voou sem eu lhe tocar!...
E o cavaleiro caminha,
Caminha sem se importar!
- Vais ver tua irmã? Ao peito
Traz um menino a criar:
Ai com que bom, lindo jeito
Ela o sabe acalentar!
E o vento embala no peito
Uma nuvem, p'ra imitar!
- Onde vais tu? Aonde, aonde?
Fantasma! vais-te casar?
Eu sei da filha d'um conde
Que por ti vive a penar...
E o fantasma não responde,
Sempre, sempre, sempre a andar!
- Vais à cata da Ventura
Que anda os homens a tentar?
(Ai d'aquele que a procura
Que eu nunca a pude encontrar...)
N'isto, pára a criatura,
Faz seu cavalo estacar:
- Vento, sim! Espera, espera!
Que estrada devo tomar?
(É um menino, é uma quimera
E todo lhe ri o olhar...)
E o vento, com voz austera,
Dor, querendo disfarçar:
- Toma todas as estradas
Todas, áquem e além-mar:
Serão inúteis jornadas,
Nunca lá hás-de chegar...
Palavras foram facadas
Que é vê-lo, todo a sangrar...
E seus cabelos trigueiros
Começam de branquear,
E olham-se os dois cavaleiros...
Quedam-se ambos a cismar.
Brilha o Oriente entre os pinheiros,
Ouvem-se os galos cantar...
- Adeus, adeus! Nasce a aurora,
Adeus! vamos trabalhar!
Adeus, adeus! vou-me embora:
Chamaram-me as velas, no mar...
o vento vai por hi fóra,
No seu cavalo, a ventar...



António Nobre, in 'Só' 

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